Acampamento Krusty na Venezuela – Parte 2

Mas experimenta ficar onze horas nesse barco, sem falar nada, esperando resgate no meio do mato.

Experimenta ficar onze horas nesse barco, sem falar nada, esperando resgate no meio do mato e no escuro.

ANTES DE LER ESSE TEXTO, LEIA A PRIMEIRA PARTE, PUBLICADA LOGO AQUI EMBAIXO.

A programação inicial era: vamos sair de barco às 9h, para que possamos chegar às 16h no acampamento e ter tempo de dar um rolé na área próxima ao Salto Angel. São algo como 70km amazônia adentro, via fluvial. O tal do índio Félix, claro, não deu as caras no horário e a gente já ficou imaginando o que isso queria dizer. Não deu outra: o camarada ficou retardando o começo do passeio pra pegar mais uns otários que tavam chegando de avião no mesmo dia. Então, além dos eslovenos, das coroas francesas e do espanhol, chegaram mais uns trouxas de outras nacionalidades que não lembro agora para se espremerem com a gente numa canoazinha motorizada. Caminhamos uma meia hora até chegar ao ponto de partida, sob um sol escaldante e, como já era meio dia, comemos alguma gororoba ali e entramos na “embarcação”.

“Bem, se já são meio-dia e leva sete horas o passeio, fodeu né? Vamos chegar 19h, no mínimo”. Nessa hora, vi que tinham entrado também dois moleques locais no barco, não tinha entendido muito por quê. A lancha partiu, com todo mundo sentado, espremido, sem poder se mexer, tomando sol e vapor d´água na cachola de forma ininterrupta. Até que é agradável. Mas a porra do rio é tão largo quanto raso. Então vira e mexe o condutor do barco procurava umas brechas pra conseguir seguir sem bater nas pedras do fundo. Em alguns casos, ele encostava na beira do rio e mandava a gente seguir a pé por algumas centenas de metros para que ele pudesse subir alguma corredeira (a ida era contra a correnteza). E nisso o diabo do “guia” ficava caladão ao fundo, com um iPod no talo e uma cara de morto-vivo, sem semblante ou emoção. Zumbi. Tipo a gente passando no meio da maior floresta do mundo, devendo estar a alguns metros de fauna e flora absurdamente ricas e o vagabundo sem abrir a boca.

Acampamento Krusty à luz de velas, com gringo bêbado e um guia oligofrênico.

Acampamento Krusty à luz de velas, com gringo bêbado e um guia oligofrênico.

Por conta das condições opressoras de temperatura e pressão, minha câmera fotográfica pifou nesse meio tempo. Como viagem para mim é praticamente um curso externo de fotografia, o desespero aumentou. No meio dessa jornada, com um visual, admito, fantástico, o cara ainda arrumava um jeito de enfiar o barco nos mangues e mandar todo mundo descer pra “tomar uma água”. Mais uma pegadinha do malandro: caminhávamos alguns metros e lá vinha uma arapuca de tourista. No meio da floresta, uma cabana com los locales vendendo artesanato e bebidas a preços módicos. Fico de cara como ainda tem otário que cai nessa.Depois de várias subidas tensas e já com o sol baixando, lá pelas 16h, eis que o barco passa por uma corredeira rasa e o motor silencia. O índio e os seus dois comparsas puxam a cordinha várias vezes em vão. Então, sem falar nada pra ninguém (os turistas gringos, à exceção do espanhol, que tava lá na frente do barco, não entendiam o que os bichos falavam entre si nem a paulada), eles sacaram umas caixas de ferramentas e depois de uma hora trocaram o diabo do motor por um reserva que tava ali.

Já era de 17h pra 18h quando o barco retomou o percurso e eu só me imaginando naquela porra escura de noite. Mais uma ou duas horas de subida de barco. Pedras, corredeiras e um novo silêncio. Porra. O que parecia inimaginável rolou de novo. O segundo motor quebrou. Pelo menos foi a que a gente deduziu, pois o pajé lá ficou quieto, encostou o barco, que já estava cheio d´água, na margem e ficou prostrado em posição de meditação, sem fazer nada. Ninguém entendia lhufas e os eslovenos tavam achando até graça, jogando água neles mesmos, berrando. Todo mundo falando, meio “excitado” de estar perdido na selva. Eu e meu amigo notamos que os dois ajudantes do guia saíram do barco e se picaram pra selva (depois percebemos que foram tipo buscar um socorro caminhando por uma trilha no meio da floresta). E o barco encalhado lá. Escureceu muito. Já eram 19h. E o Félix sentado na ponta do barco ouvindo uma “música paraense” no último volume como se nada houvera. E ainda dizia: “Mousssica brasssileeeeiraaaa!!!”. Ô vontade de bater nesse cara!!!

Deu 20h, deu 21h e o que era engraçado ficou constragedor, muito além do limite do desagradável. Barulhos de insetos e bichos. Um breu que não te permitia enxergar um centimetro à frente. Água até o meio das canelas no barco, nenhum espaço pra sequer esticar as pernas, frio e as únicas pessoas calmas naquela hora eram, surpreendentemente, as duas coroas francesas. O resgate (um outro barco) chegou perto de 21h30 e continuamos a viagem no breu completo por mais uma hora até o acampamento Krusty.

O que rolou depois disso foi o seguinte: dormimos em redes num acampamento debaixo de um toldo, com esloveno vagabundo bêbado falando alto até altas horas e comportamento errático, acordamos às 4h para encarar uma subida escrotíssima até o mirante do Salto Angel, uma francesa quebrou a perna e desistiu no meio do caminho e depois de tanto esforço, a recompensa, pra mim, não foi à altura. É uma visão impressionante, fato. Mas esperava mais da tal cachoeira de 900 e tantos metros. Parecia uma restinga de vapor de água, nublada. Tanto que fiz trocentas fotos (a câmera voltara a funcionar, para meu alívio) e nunca gostei de nenhuma delas. E o tal do Félix sentado na pedra, mudo, ouvindo iPod. Na hora de descer, o cara se picou na frente, sem esperar a gente e, claro, depois de várias bifurcações e tendo passado por ali no escuro cedo, não fazia mais ideia de onde estávamos. Comecei a me emputecer, xingar o velho índio de tudo, até que o meu amigo ainda virou pra mim e falou a clássica frase: “Você tá variando, cara!!! O acampamento é por ali”. Porra, eu já tava realmente fora mim.Para encurtar a história que já tá muito comprida, pegamos um outro barco de volta (cinco horas de viagem, por ser a favor da correnteza), no mesmo perrengue da ida, apenas sem motor quebrado. Antes, sacos de lixo na margem do rio e as coroas francesas se divertindo na água: o retrato triste da viagem. Paisagens deslumbrantes, mas sem ninguém pra explicar. Tínhamos um vôo (o último do dia) de volta pra Ciudad Bolivar às 14h. E o índio na maior tranquilidade dizendo que tava tudo bem, que não era pra termos pressa. Atracamos o barco às 13h30, tendo 30 minutos pra caminhar de volta até a porcaria da pousada mal assombrada, pegar as coisas que tinham ficado lá, comer, tomar banho e se picar (a pé, é claro!) pro aeródromo. A gente saiu esbaforido, e ainda com dó dos outros turistas que tavam achando que iriam embora no mesmo dia e não tiveram a mesma iniciativa de meter sebo nas canelas que nem a gente fez. Na correria, ainda cruzamos com o FDP do Félix no meio do barrão, que falou : “tranqilo, van volar, despacio“. Foi o tempo de chegarmos e nos metermos no teco-teco de volta até o aeroporto.

...a síntese da viagem: sacos de lixo à nossa frente e duas coroas francesas se divertindo como se nada houvera.

A síntese da viagem: sacos de lixo à nossa frente e duas coroas francesas se divertindo como se nada houvera.

Ainda encontramos o cara da operadora de Ciudad Bolivar e o sujeito ficou realmente constrangido, xingou os pobres índios de tudo, xingou o Hugo Chavez (que, diz ele, nacionalizou os parques nacionais, impedindo o gerenciamento de qualquer atividade turística localmente por cidadãos que não sejam indígenas ou casados com indígenas) e ligou lá pra dar um esporro. Mas o estrago tava feito e a gente ainda mofou uma tarde toda no aeroporto esperando o ônibus que iria até Santa Elena (12 horas de viagem noturna).Nem vou entrar em detalhes, mas nessas dozes horas de viagem, houve pelo menos quatro paradas para baculejos. Você acorda com uma metralhadora encostando na sua cabeça e os policiais (moleques de 20 e poucos anos fardados e armados até o pescoço) mandam todos os homens descerem e encostar no onibus com as mãos pra cima. Parece paredão de fuzilamento. E ainda teve mais, pelo menos pro meu amigo: um moleque vomitou no pé dele no meio da viagem. E outro ouvia o seu headphone no talo, claro, com uma música bem ruim (isso será tema de outro post, aliás, algo como “por que ninguém que insiste em democratizar o som de sua preferência tá ouvindo música boa?”).

Bem, pra quem teve saco de ler esse testamento, agradeço a paciência. Não consegui ser mais sintético, mas fica o meu registro. Alguém aí já passou por situações toscas desse level? Ou parecidas?

PS: Ainda não entendeu o título do texto? Dá uma sacada aqui

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