Em busca da batida perfeita

carro1Eu não canso de dizer que a música permeia quase tudo na minha vida. Eu leio sobre música. Eu ouço filmes sobre músicos ou bandas. Eu pauto boa parte de minhas viagens para ver um show. Eu tento tocar guitarra mal e porcamente (praticamente desisti, mas ainda tenho esperança). Eu só saio de casa para um lugar tendo a certeza da qualidade da música que estará tocando lá. Eu tiro foto pensando em associar a imagem a alguma música. Eu estou sempre atento ao que está tocando ao meu redor. Sou bastante chato com isso, reconheço.

Outro dia, estava lembrando das músicas que estava escutando nas vezes em que bati o carro. De algumas delas eu me recordo com uma nitidez impressionante.

Era ano de 1994 em Brasília e eu devia ter carteira de motorista há não mais de dois meses. Chovia bastante e eu estava indo da Asa Sul para a Asa Norte, pelo Eixinho de baixo. Assim que passei pelo Setor Bancário Norte, ali na altura da 201 Norte, eu estava na faixa da esquerda com o Santana da minha mãe (BT-7259) cantando a plenos pulmões, ironicamente, “Highway Star”, do Deep Purple. Claro, o som era no K7 do carro. CD era luxo ainda.

Eis que, de repente, vejo um Chevette andando a tipo 10 por hora na minha frente. Freei o máximo que deu, mas não teve jeito. Enchi o carro por trás. Ele seguiu seu caminho e eu catei o meio fio entre as duas pistas do Eixinho L Norte. Furei dois pneus e dei uma detonada no carro. Nada muito grave. Enquanto isso, o som rolava “nobody’s gonna drive my car, I’m gonna race it to the groooooooound”.  Profético. Lembro de ter ligado, de um orelhão, no meio da chuva, pedindo socorro pra dois amigos meus do tempo do Sigma, o Caw e o Alceu, que aos 18 anos, era motorista de táxi – achava o máximo ter um amigo motorista de táxi naquela época.

Outra clássica foi no exato dia da final do Campeonato Brasileiro de 1995, entre Santos x Botafogo, aquele jogo que o Fogão levou a melhor e a Paulicéia Desvairada até hoje classifica “o maior roubo de todos os tempos”. Lembro de ter visto o primeiro tempo e depois ter ido para o ginásio do Iate Clube de Brasília, na Asa Norte, para ver o show do Pato Fu (o que a gente não faz por amor, hein?) com a minha então namorada. Acabou o show e decidimos ir para o Beirute da Asa Sul.

imagesCAI57K9NEstávamos no Golzinho vermelho da minha mãe e seguíamos pela W3 Norte, bem no comecinho, no lugar onde uns dois anos depois seria construído o Brasilia Shopping. Maior clima romântico, a gente ouvindo “Till There Was You”, dos Beatles. Àquela hora da noite, os sinais de trânsito da W3 piscavam no “amarelo”, de forma intermitente. E nesse exato ponto tinha um cruzamento. A preferência era minha e eu estava tranquilo no meu caminho, quando vi um carro, acho que um Opala, se aproximando no tal cruzamento. Nem pensei em parar, o tal carro ainda tava muito longe. Mas o cara não pensou assim. Ele tava voando e me acertou feio. O Golzinho capotou duas vezes, estourou até o tanque de gasolina, empeonou a roda em 90 graus e só foi parar no meio da ladeira, já perto do viaduto que passa por baixo do Eixo Monumental, na transição das W3 Norte e Sul.

Eu e a namorada saímos do carro atordoados, só pra ver que o FDP que tinha acertado a gente fugiu sem prestar socorro nem nada. “Then there was music and wonderful roses. They tell me in sweet fragrant meadows of dawn and you”.  Constrangedor. Eu ainda tava transtornado porque era dezembro e iria viajar de férias (não mais com aquele carro, claro) no dia seguinte. Nem lembro o tamanho da chateação em casa. Fora uma marca de cinto e as tradicionais dores musculares que costumam aparecer com força no dia seguinte aos acidentes, até que foi tudo bem.

Já tive outras batidas menores ou maiores, mas não tenho lembranças musicais destas. Uma outra situação, que não chegou a ser uma batida, ocorreu em uma viagem familiar para Europa em 1997, na época em que o dólar não comprava nem um Real. Pra resumir a ópera: a família Urso toda num furgão e meu irmão mais novo, o Xereta, dirigindo a van contra o tempo pra gente tentar pegar a última balsa que nos levaria a Veneza (Itália). Era tipo umas 18h, tudo escuro já (mês de dezembro) e a balsa sairia 18h mesmo, quando a gente chegou na cancela que dava acesso ao porto. Uns 800 metros de pista inclinada nos separavam do barco, que estava saindo. O cara deixou a gente passar e ainda falou pra corrermos “que dava”. Meu irmão acelerou o que pôde na rampa. No carro estava rolando AC/DC no talo. 500m. Som muito alto. 400m. Adrenalina total. 300m. A balsa saindo. 200m. A gente chegando. 100m…. e a balsa saiu, e ficou só o mar à frente. O Xereta só teve o tempo de frear bruscamente e girar o voltante para evitar que nos jogássemos no Mar Adriático. O cavalinho-de-pau nos deixou à beira do canal, longe da balsa, mas vivos. Parecia o fim de uma cena de ação em filme americano. Todo mundo com cara de pânico e os solos absurdos do Angus Young de Back In Black rolando sem parar. Tem como esquecer desse momento?

Aguardo relatos semelhantes, companheiros!!!

  1. O Alceu era motorista de táxi? Nunca soube disso. Também nunca soube que você capotou o carro. Eu já bati o carro uma vez, logo que tirei carteira, e não tenho a mais remota ideia de que música estava tocando, porque eu chorava tanto que não era possível ouvir nada à minha volta.

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