Programa de índio?

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Toda vez que volto de uma viagem “ecoturística”, é a mesma coisa: “caramba, o que você foi fazer no meio do mato? Caminhou cinco dias? Dormiu em barraca? É louco? Eu teria desistido na primeira hora“, me dizem alguns. Normal. Dependendo do lugar e do que você tá fazendo, de onde tá caminhando, eu mesmo nem teria começado. O que mais tem por aí é trilha chata, que leva o nada ao lugar nenhum passando por um caminho mais feio que bater na mãe na véspera do Natal. Mas o que muita gente não percebe é que uma viagem desse tipo, de “fazer trilha“, é escolhida meticulosamente, provavelmente com muito mais critério e cuidado do que uma viagem urbana. Ninguém se mete no meio do mato num parque nacional sem saber o que vai ver pelo caminho e, sobretudo, sem saber onde vai dormir, como vai dormir, o que vai ter a seu dispor, o que vai ter de levar, etc. Todos esses fatores são decisivos na hora de escolher e traçar o planejamento de uma “ecotrip”. Comigo não é diferente. Aguento alguns perrengues. Não aguento outros (carregar e montar barraca, fazer a própria janta, dormir no chão, por exemplo).

No meu caso, e acho que a maioria das pessoas que gostam de passar parte (ou mesmo toda) das suas férias fazendo trekking, a motivação passa principalmente pelos fatores “contato direto com a natureza”, “nível alto de isolamento” e principalmente “recompensas no cenário”. Uma trilha legal tem que passar por vales, rios, cachoeiras, montanhas, lagos, florestas. Tem que ter uma vista panorâmica – e para ter vista panorâmica provavelmente você vai ter de subir e queimar muita lenha no percurso, garotão. Se tiver animais selvagens no meio do caminho, melhor ainda.

Eu cada vez mais amo o contato com a natureza. Tem vezes que me dá dó de ter de ir embora de um lugar bem isolado e voltar pro mundo real. Dá vontade de ficar por lá e largar esse universo emocionalmente opressor a que sobrevivemos todos os dias. Gosto de ficar longe, olhando pro céu, “ouvindo o silêncio”, refletindo sem interrupções sobre meus relacionamentos pessoais e profissionais, repensando meus planos, questionando minha própria existência, minhas atitudes e rumos. Nesse ponto, me incomoda sim ir para um lugar fazer trilha onde tem hordas de crianças e adolescentes obesos, grupos de quarenta pessoas com guias para fazer caminhada de trinta minutos em calçadas pavimentadas, com corrimão, plaquinhas e o escambáu. Nada contra essas pessoas. Mas não é para mim, hoje. Tudo teve, tem e terá seu tempo.

Uma trilha tem que ser difícil. Tem que ser sofrida. Tem que ter perrengue. Porque só dá valor a uma cachoeira linda, à vista de um horizonte infinito, a um pôr-do-sol indescritível e a uma sensação de paz quem supera tudo isso sem reclamar do peso da mochila, da falta de energia elétrica ou de água quente, sem achar que aquela trajetória é um coisa sem o menor sentido. Uma caminhada pelo meio do mato testa a sua vontade, a sua determinação, a sua capacidade de desprendimento, a sua solidariedade, a sua capacidade de relevar imprevistos pequenos, médios ou grandes em busca de um objetivo maior.

O meu “programa de índio” mundo afora, sempre que possível, está cada vez mais próximo do contato direto e remoto com a natureza.

E se você gosta tanto de natureza quanto eu, você me entende perfeitamente quando eu digo que foi espetacular ficar oito dias no Monte Roraima dormindo em barraca e com o joelho estourado. Que foi histórico andar 80km em quatro dias no sul no Parque Nacional de Torres del Paine, no Chile. Que foi regozijante caminhar um dia inteiro no meio da chuva entre as pedras no leito de um rio pra chegar à Cachoeira da Fumaça na Chapada Diamantina. Sim, você me entende também quando, em vez de querer fazer compras em Miami ou passar sete dias visitando (???) seis cidades na Europa, eu posso querer passar o próximo feriado no Jalapão, na Chapada dos Guimarães ou no Aparados da Serra.

  1. Bebipe, curta com intensidade cada um destes momentos, vc nao dara conta de faze-Los sempre, daqui ha alguns anos, as melhores trilhas que foram em floripa, entre praias isoladas com mata fechada, com um tio hj falecido, e tb na chapada, pela reserva… Parece pouco, mas sao coisas que marcaram e nao se repetirao

    • Olhaí, que surpresa agradável Jonny Peter por aqui.

      Tô ligado que não vou dar conta sempre, JP. Mas com alguns cuidados com a saúde, você supera as dificuldades. As experiencias marcantes não o são pela quantidade, mas por uma série de razões que só entende quem viveu a experiência.

      Não dá pra repetir suas experiências, mas dá pra fazer novas e boas. Bora?

      Abração!

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